Sou do tempo que tristeza era curada com um pedaço de goiabada com queijo, nas hoje não.
Qualquer tristezazinha já tem de ser medicada com comprimidos que entorpecem a alma.
Eu sou do tempo que mingau de fubá era a primeira refeição do dia.
A roupa branca quarando no varal, o cheiro de broa de milho, o calor do forno de tambor que ficava na varanda.
Vida emoldurada de matéria simples, quase silenciosa.
Os sabores não demoram em nós.
O prazer da roupa nova é reduzido drasticamente no momento da compra e ao primeiro uso.
Sou do tempo em que jardi, não era artigo de luxo.
Cada família cultivava o seu.
Hoje arrumaram até paisagistas para darem jeito nas feiuras do mundo.
Dizem que sou detalhista.
Não sei se sou.
Se acreditar que cuidar das miudezasé um jeito de construir a totalidade, então eu sou.
Acho que estou ficando triste, ou deprimida, não sei.
_Alguém me traz um pedaço de goiabada com queijo, por favor!
Antes prevenir que remediar...
(Livro_ Mulheres de Aço e de Flores.)
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